Monday, 17 October 2011
Thursday, 6 October 2011
Limpeza étnica: Ministra britânica quer se livrar dos humanos, digo... direitos humanos
A ministra do Interior britânica, Theresa May, declarou guerra aos imigrantes. Isso não foi uma grande novidade e há muito tempo, principalmente desde que o atual primeiro ministro David Cameron assumiu o poder, os estrangeiros vem sendo alvo de políticas que visam diminuir o seu reconhecimento como cidadãos, limitando assim os seus direitos. O porquê? O atual governo britânico acha que deve-se proteger os empregos daqueles aos quais a "terra pertence”. O argumento é que imigração descontrolada traz danos à sociedade já que a última tem de se adaptar rapidamente às mudanças provocadas por mais pessoas chegando aos centros urbanos.
Apesar do óbvio desejo da ministra do Interior britânica, Theresa May, de enviar todos os vira-lata para de onde vieram, o discurso desta terça-feira (4 de outubro), realizado na Conferência do Partido dos Conservadores, foi um breakthrough: com a boca cheia de ódio, May disse que era preciso se livrar da lei dos direitos humanos, que o artigo 8 – o do direito à vida familiar – não era considerado direito inalienável e que imigrantes ilegais e infratores da lei deveriam retornar para casa mesmo que tivessem laços e família aqui.
Depois de ser motivo de controvérsias dentro do partido dos Conservadores, o caso do gato foi desmentido por Barry O’Leary, advogado do requerente boliviano, que disse que o episódio, ocorrido em 2008, envolvia um estudante boliviano que alegou poder mostrar ter uma relação permanente com seu parceiro e que não deveria ser deportado. A aquisição conjunta da gata teria sido usada como uma das provas da existência de uma “vida familiar” entre o casal.
Em um de seus rompantes de moralismo puro e de demonstração de sua indiferença ao que é humano, Theresa disse que “todos nós sabíamos sobre as estórias do Ato dos Direitos Humanos”. Para ela, eram estórias de seres moralmente inferiores como a do “traficante que não pode ser mandando para seu país porque sua filha, a quem ele não paga nada, vive no Reino Unido. Do ladrão que não pode ser removido porque tem uma namorada. Do imigrante ilegal que não pode ser deportado porque tem um gato de estimação”.
Theresa repetiu que era necessário o desaparecimento dos direitos humanos para trazer de volta a “sanidade” ao sistema de imigração.
Recentes mudanças no sistema imigratório:
Desde o dia 07 de abril deste ano, os estrangeiros que residem legalmente no Reino Unido que quiserem se tornar cidadãos precisarão comprovar que têm ‘caráter” melhor do que o dos “nativos” e não poderão apresentar registros na polícia. Além de cidadãos exemplares, também terão de ganhar mais do que a maioria da população. Haverá um teto mínimo: ganhando-se menos, perde-se o direito à cidadania. A lei ainda faz outras mudanças menos importantes.
A crescente onda xenofóbica
A ideia de que o controle da imigração deve ser tratado como prioridade no momento de crise, causa a impressão de que a causa da crise também está relacionada com a imigração. O que não tem correlação causal direta. Trata-se de uma crise mundial proveniente, digamos assim, da obsessão pelo crescimento, da irresponsabilidade dos homens que vestem ternos. E o que se vê agora no Reino Unido, é a tentativa de minimizar o efeito dela nas populações “originais” pela via de maximizar o prejuízo às minorias (diga-se imigrantes e pobres). O que ao meu ver, traduz-se em RACISMO, puro e virgem. Afinal de contas, reduzir o número de imigrantes ilegais que poderão ficar no país por “terem gatos” ou coisas do tipo, pouco (ou nada) vai mudar a situação econômica do país.
Adicione à equação muito cinismo: os crescentes ataques do governo aos envolvidos nos motins em agosto e a investida dele contra os imigrantes, desviam o olhar do povo para as reais causas da crise. Está havendo certamente um absurdo lógico onde consequências estão sendo usadas como causas. Os motins foram causados pelos cortes e portanto aquelas pessoas não podem merecer os cortes por serem culpadas pelos motins, já que os últimos vieram depois. Ideia parecida está ligada à tal limpeza étnica em curso: porque agora? Se realmente estamos querendo proteger o nosso povo porque não atacar diretamente quem realmente tem responsabilidade: os bancos? Custe o que custar, afinal de contas, muitos de nós já não têm muito o que perder, a não ser os que muito têm.
Há perigo no consentimento (ou no mínimo, indiferença) da maioria das pessoas a essas declarações da ministra, no não espanto delas diante de alguém querendo retroceder e abandonar os direitos humanos. Ouvir a ministra do interior insinuar que os Imigrantes ilegais são criminosos torna claro o discurso desta bruxa, a não ser que alguém realmente ache que migrar-se para um outro país para tentar uma vida mais digna é crime.
É notável que haja aquele sentimento de aproveitar a bagunça e limpar a casa, de varrer toda a sujeira para debaixo do tapete e seguir. De usar a desculpa da crise para perseguir e pôr uns contra os outros em vez de unir. O que se vê é muito similar ao que se viu na Alemanha (guardadas as devidas proporções) há algumas décadas atrás: uma classe média conivente com um governo/burguesia perseguidores das minorias por motivos econômicos, cegados pelos “fatos” (intencionalmente postos fora de contexto).
Felizmente temos as leis dos direitos humanos pra impedir que coisas piores aconteçam. E por isso elas devem permanecer lá.
Wednesday, 10 August 2011
E tudo acaba em chá
Depois de três dias de motins que devastaram Londres e outras cidades inglesas, chovem perguntas. Nas redes sociais, na internet, nos jornais ingleses e nos principais canais de tevê britânicos, todos perplexos se indagam sobre o que pode levar pessoas a cometerem “tais atrocidades”. Não há consenso, mas a consistente superficialidade das questões postas pela mídia do Reino Unido (e do mundo) é o que mais assusta.
Matérias propondo que a culpa pelos motins fosse atribuída, ao menos em parte, à tecnologia (smartphones / Twitter / Facebook) que teria permitido aos jovens o alcance de tal grau de articulação soam demasiadamente ridículas. Teria sido a “liberdade de expressão” ou a possibilidade de expressão em alta velocidade o que teria causado a revolta de uma juventude inteira composta de minorias étnicas e sociais?
A maioria das matérias questionou as táticas da polícia. Ficaram curiosamente apegadas ao fato (e repetiram-no infinitas vezes) dos desordeiros terem roubados televisores de plasma como se estivessem (os jornalistas) quase demonstrando um certo “recalque” pelo “consumo” do qual aqueles desfrutaram sem desembolsar um penny.
Ficou clara a posição dos jornalistas e veículos de comunicação depois de tantos dias de cobertura exaustiva do acontecido: estavam todos ali se limitando a lamentar, lamentar, lamentar. E evitando questionar. Uma possível análise mais profunda e sociológica, de caráter preventivo e humano, na tentativa de entender as causas e corrigí-las, foi impossibilitada por uma reportagem medíocre, recheada de pérolas do senso-comum, tratando um evento de tal magnitude como caso de polícia. Sem sequer dar-se conta do quão sintomáticas tais “manifestações” eram (ou tentando ignorar tais sintomas).
Desconfio que estavam só mesmo sendo ingleses e praticando o eufemismo sagrado de cada dia. (Ou sendo mídia e dançando conforme a música.) Jogando panos quentes no debate, em vez de mediá-lo. Talvez tivessem todos covardemente temendo o que uma desestabilização maior pudesse lhes causar. Ou talvez mesmo acreditassem que as atuais políticas do governo britânico (e a economia de mercado) não tivessem muito a ver: é mesmo tudo questão de índole. E portando, com a qual devemos lidar com repressão, mais repressão.
Certamente não há desculpa para os motins, mas há, sem dúvidas, causas. E é pra isso que todos nós temos que abrir bem os olhos. Não há nada mais perigoso e miserável do que um homem que não tem nada a perder. E é isso que nossos estados estão criando. Montes deles.
Subscribe to:
Posts (Atom)







