Wednesday, 10 August 2011

E tudo acaba em chá


Depois de três dias de motins que devastaram Londres e outras cidades inglesas, chovem perguntas. Nas redes sociais, na internet, nos jornais ingleses e nos principais canais de tevê britânicos, todos perplexos se indagam sobre o que pode levar pessoas a cometerem “tais atrocidades”.  Não há consenso, mas a consistente superficialidade das questões postas pela mídia do Reino Unido (e do mundo) é o que mais assusta.

Matérias propondo que a culpa pelos motins fosse atribuída, ao menos em parte, à tecnologia (smartphones / Twitter / Facebook) que teria permitido aos jovens o alcance de tal grau de articulação soam demasiadamente ridículas. Teria sido a “liberdade de expressão” ou a possibilidade de expressão em alta velocidade o que teria causado a revolta de uma juventude inteira composta de minorias étnicas e sociais?

A maioria das matérias questionou as táticas da polícia. Ficaram curiosamente apegadas ao fato (e repetiram-no infinitas vezes)  dos desordeiros terem roubados televisores de plasma como se estivessem (os jornalistas) quase demonstrando um certo “recalque” pelo “consumo” do qual aqueles desfrutaram sem desembolsar um penny.

Ficou clara a posição dos jornalistas e veículos de comunicação depois de tantos dias de cobertura exaustiva do acontecido: estavam todos ali se limitando a lamentar, lamentar, lamentar.  E evitando questionar.  Uma possível análise mais profunda e sociológica, de caráter preventivo e humano, na tentativa de  entender as causas e corrigí-las, foi impossibilitada por uma reportagem medíocre, recheada de pérolas do senso-comum, tratando um evento de tal magnitude como caso de polícia. Sem sequer dar-se conta do quão sintomáticas tais “manifestações” eram (ou tentando ignorar tais sintomas).

Desconfio que estavam só mesmo sendo ingleses e praticando o eufemismo sagrado de cada dia. (Ou sendo mídia e dançando conforme a música.) Jogando panos quentes no debate, em vez de mediá-lo. Talvez tivessem todos covardemente temendo o que uma desestabilização maior pudesse lhes causar. Ou talvez mesmo acreditassem que as atuais políticas do governo britânico (e a economia de mercado) não tivessem muito a ver: é mesmo tudo questão de índole. E portando, com a qual devemos lidar com repressão, mais repressão.

Certamente não há desculpa para os motins, mas há, sem dúvidas, causas. E é pra isso que todos nós temos que abrir bem os olhos. Não há nada mais perigoso e miserável do que um homem que não tem nada a perder. E é isso que nossos estados estão criando.  Montes deles.